Há quem diga que nem todas as lendas nascem da imaginação.
Algumas nascem do silêncio.
Os habitantes mais antigos do Bairro das Eiras, em Mem Martins, contavam que, muito antes de existirem ruas alcatroadas e automóveis, a Ribeira da Lage era um lugar respeitado. As suas águas eram limpas, e mais profundas, e o nevoeiro que descia da Serra de Sintra escondia tudo o que tocava.
Ninguém sabia ao certo quando começou a história.
Os avós ouviam-na dos bisavós, e estes juravam tê-la aprendido com gente ainda mais antiga.
Falavam de uma mulher que surgia apenas nas noites de nevoeiro. Vestia um xaile escuro, caminhava devagar pela margem da ribeira e nunca fazia ruído. Quem a via dizia que parecia flutuar, como se os pés nunca tocassem o chão. Nunca olhava para trás.
Conta-se que um pastor resolveu segui-la, convencido de que ela escondia um tesouro antigo entre os penedos. Caminhou atrás daquela figura durante largos minutos, mas quando o nevoeiro se dissipou percebeu que estava exatamente no mesmo lugar de onde tinha partido. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Dizia que, durante toda a caminhada, ouvira água correr... mas a ribeira estava quase seca.
Anos depois, um moleiro contou uma história semelhante. Jurava que a mulher lhe tinha sorrido antes de desaparecer na névoa. Na manhã seguinte encontrou, junto à margem da Ribeira da Lage, uma pequena pedra branca em forma de lágrima. Guardou-a até ao fim da vida, convencido de que o protegera de uma grande desgraça. Desde então, sempre que o nevoeiro cobre o Bairro das Eiras, ainda há quem prefira dar uma volta maior para evitar a margem da ribeira.
Não por medo. Mas por respeito. Porque, segundo os mais antigos, a Senhora da Ribeira da Lage nunca faz mal a quem passa... apenas aparece a quem a Serra de Sintra escolhe.
E há um velho ditado que ainda hoje alguns moradores repetem em voz baixa:
"Se a névoa te chamar pelo nome, não respondas. Caminha em frente... porque nem todas as vozes pertencem aos vivos."

Sem comentários:
Enviar um comentário