Durante anos, uma faixa de terreno por trás das últimas casas do Algueirão foi ignorada.
Algumas pessoas quando passavam por ali apenas relembravam: “ali foi uma quinta antiga...”. Nada mais. Nenhuma placa, nenhum registo visível, apenas duas árvores tortas permanecem e um muro antigo.
Num fim de tarde de Janeiro, a terra cedeu junto a um velho poço tapado e abandonado. O buraco revelou algo inesperado: uma laje de pedra trabalhada, diferente das pedras comuns dos muros rurais.
Chamaram-se vizinhos, depois alguém da Junta de Freguesia, depois um historiador local.
Escavando com cuidado o solo, surgiu um pequeno compartimento subterrâneo. Era uma pequena caverna que guardava histórias.
Lá dentro encontrou-se uma caixa de madeira selada com cera antiga. Ali estavam guardadas cartas e cadernos de capa de pano.
As cartas revelavam algo improvável: aquela quinta não era apenas agrícola. Era um refúgio discreto para quem precisava de desaparecer por uns tempos — trabalhadores perseguidos pela PIDE no tempo da ditadura.
A quinta oferecia refugio, trabalho simples e silêncio.
Quem lá ficava deixava algo para trás: uma carta com as suas histórias, medos e desejos.
Com o tempo, a quinta foi sendo vendida, dividida, esquecida. As casas cresceram à volta. O poço ficou totalmente selado.
Hoje, o espaço está perdido numa zona de moradias.
E há quem diga que, se escutares com atenção, ali no Algueirão ainda estão guardadas histórias de quem um dia precisou de um lugar para se proteger e talvez recomeçar a vida...
Não há registos do nome daquela antiga quinta, e não se sabe que destino tiveram estas cartas.

