Tempo em Algueirão Mem Martins

sexta-feira, 31 de julho de 2026

[TSF] Meio século e milhares de jornais depois, encerra o último quiosque da freguesia mais populosa do país

É sexta-feira, dia 31 de julho de 2026. Neste dia, o concelho de Sintra diz adeus ao último quiosque de jornais da freguesia de Algueirão-Mem Martins, a mais populosa do país.

O espaço foi construído em 1985, junto à estação de comboios, do lado de Algueirão, mas tem agora os dias contados, porque os donos, José e Lurdes Bento, vão reformar-se. Além dos jornais, das raspadinhas e do tabaco, este quiosque acabou por tornar-se, ao longo dos anos, num local de convívio para os moradores mais velhos da freguesia. António Leitão é um deles.




"Aqui era o ponto de encontro dos amigos desta zona", começa por contar à
 TSF, encostado ao parapeito do quiosque, enquanto José vai atendendo outro cliente. Aqui falava-se de tudo um pouco, mas António explica que o futebol era, quase sempre, o tema predileto. Em concreto, a conversa andava sobretudo à volta do Benfica e do Sporting, e tendia a aquecer os ânimos. "No dia a seguir [a um derbi], só faltava andarem aos beijos", recorda, entre risos. Mas nem só de "bola" viviam os convívios junto ao quiosque de Zé e Lurdes.

"Perguntávamos uns pelos outros: se um ia à terra, se não ia, se outro estava doente, etc.", afirma, sendo que agora, com o fecho do quiosque, ainda não encontrou uma alternativa para substituir estes encontros. "A partir da próxima semana levanto-me e vou para onde? O que vou fazer? Fico em casa? É uma pena", lamenta.

José e Lurdes Bento chegaram a vender centenas de jornais diariamente. Nos últimos anos, só saíam algumas dezenas por dia, uma quebra que, pelas contas do dono do quiosque, terá rondado 90% da faturação. "A partir de 2000 [o negócio de jornais] desceu muito e foi reduzindo", conta José Bento, enquanto fecha a caixa registadora e se estica do lado de dentro do balcão para conversar com a TSF. "Neste momento", acrescenta, "o que mais se vende, de norte a sul, são as raspadinhas e o tabaco".

Com um gosto assumido pela leitura, José Bento lamenta que as pessoas estejam a ler cada vez menos jornais. "Agora é assim, são os telemóveis e os computadores que as pessoas têm em casa com todos os jornais e revistas, e o papel vende-se menos", acusa.

Apesar de trabalhar cerca de 10 horas todos os dias, quase sem folgas nem férias há mais de 40 anos, o negócio do quiosque chegou a estar em risco. Ainda assim, José Bento garante que não é por falta de clientes que decidiu fechar portas. Não está descontente com o trabalho, mas confessa-se "cansado", pelo que entendeu ter chegado a altura de parar. Para trás ficam as memórias e as pessoas.

"Ganhei muitos amigos, tive muita convivência...mil e uma coisas. [Saio] com um sentimento de gratidão [para com] as pessoas todas de Algueirão-Mem Martins", conclui. E sobre os planos para a reforma, garante apenas que ele e a mulher vão "viver a vida". 

O quiosque de José e Lurdes Bento vai agora ser demolido, porque a Câmara Municipal de Sintra quer recuperar a rua junto à estação de comboios de Algueirão-Mem Martins. 
Ouvido pela TSF, o vice-presidente da autarquia, Francisco Duarte, afirma que fica triste com a notícia do desaparecimento do último quiosque de jornais na freguesia, mas assegura que esta despedida não é um "adeus", mas sim um "até já", garantindo que vão ser criados mais quiosques no concelho. 

Trata-se de "uma nova rede de quiosques municipais, mais moderna e atualizada, com espaços que acabam por juntar leitura, cultura, cafetaria e ainda serviços autárquicos de proximidade, para aproximar a Câmara Municipal dos sintrenses", adianta. A ideia do município é construir, pelo menos, um quiosque em cada freguesia de Sintra e que os primeiros possam abrir já no próximo ano. 

O objetivo assumido é que os novos quiosques ajudem a manter as vendas dos jornais em papel. "[Nos quiosques tradicionais], a pessoa vai só comprar o jornal, mas depois não tem mais oferta (um café, um espaço para sentar-se a ler o jornal); temos de adaptar-nos a estes novos tempos e criar mais oferta para que não desapareça a venda do jornal, da raspadinha, etc.", acrescenta. 

Os últimos dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação mostram que, em relação ao ano passado, as subscrições de jornais online subiram cerca de 8%, no primeiro trimestre de 2026, enquanto as vendas em papel caíram quase 11%, mantendo assim a tendência de descida dos últimos anos.

Fonte: www.tsf.pt 
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Meio século e milhares de jornais depois, encerra o último quiosque da freguesia mais populosa do país - TSF

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Lenda: "Senhora da Ribeira da Lage"

Há quem diga que nem todas as lendas nascem da imaginação. 
Algumas nascem do silêncio.

Os habitantes mais antigos do Bairro das Eiras, em Mem Martins, contavam que, muito antes de existirem ruas alcatroadas e automóveis, a Ribeira da Lage era um lugar respeitado. As suas águas eram limpas, e mais profundas, e o nevoeiro que descia da Serra de Sintra escondia tudo o que tocava.
Ninguém sabia ao certo quando começou a história.

Os avós ouviam-na dos bisavós, e estes juravam tê-la aprendido com gente ainda mais antiga.

Falavam de uma mulher que surgia apenas nas noites de nevoeiro. Vestia um xaile escuro, caminhava devagar pela margem da ribeira e nunca fazia ruído. Quem a via dizia que parecia flutuar, como se os pés nunca tocassem o chão. Nunca olhava para trás.



Conta-se que um pastor resolveu segui-la, convencido de que ela escondia um tesouro antigo entre os penedos. Caminhou atrás daquela figura durante largos minutos, mas quando o nevoeiro se dissipou percebeu que estava exatamente no mesmo lugar de onde tinha partido. Nunca mais voltou a ser o mesmo. Dizia que, durante toda a caminhada, ouvira água correr... mas a ribeira estava quase seca.

Anos depois, um moleiro contou uma história semelhante. Jurava que a mulher lhe tinha sorrido antes de desaparecer na névoa. Na manhã seguinte encontrou, junto à margem da Ribeira da Lage, uma pequena pedra branca em forma de lágrima. Guardou-a até ao fim da vida, convencido de que o protegera de uma grande desgraça. Desde então, sempre que o nevoeiro cobre o Bairro das Eiras, ainda há quem prefira dar uma volta maior para evitar a margem da ribeira.

Não por medo. Mas por respeito. Porque, segundo os mais antigos, a Senhora da Ribeira da Lage nunca faz mal a quem passa... apenas aparece a quem a Serra de Sintra escolhe.
E há um velho ditado que ainda hoje alguns moradores repetem em voz baixa:
"Se a névoa te chamar pelo nome, não respondas. Caminha em frente... porque nem todas as vozes pertencem aos vivos."

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Restaurante "O Pizza", Mem Martins

Durante muitos anos, o restaurante O Pizza, no Largo do Cruzeiro, em Mem Martins, foi muito mais do que um simples restaurante. Era um verdadeiro ponto de encontro de famílias, amigos e vizinhos, onde se celebravam aniversários, almoços de domingo e tantos outros momentos especiais.


O mais curioso era a variedade da ementa: tanto se podia saborear uma deliciosa pizza como optar por uma generosa espetada de lulas com gambas, havendo opções para todos os gostos. Muitos habitantes da vila guardam com carinho essas refeições, o ambiente acolhedor e as escadas que tantas vezes desceram de barriga cheia e sorriso no rosto.


Hoje resta a saudade de um espaço que marcou uma geração e que continua a ocupar um lugar muito especial nas memórias de Mem Martins.
Neste espaço, no dias de hoje funciona uma agência bancária.

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Adeus Quiosques em Algueirão Mem Martins

Há lugares pequenos que guardam memórias enormes. Os quiosques de jornais e revistas junto à estação da CP de Algueirão-Mem Martins eram um desses lugares.

Durante décadas, fizeram parte da paisagem e da rotina de quem todos os dias esperava pelo comboio. Eram as capas dos jornais pela manhã, as revistas da semana e aquele olhar curioso de quem passava e espreitava “as gordas” para saber as principais notícias do dia.

Antes de entrar no comboio, havia sempre aquele gesto quase automático: parar por breves segundos, ler uma manchete, comentar uma notícia, comprar o jornal ou simplesmente matar a curiosidade.


Ali não se vendiam apenas jornais e revistas. Vendiam-se momentos, hábitos e pequenos encontros que faziam parte da vida da nossa terra. Mas o tempo mudou. O mundo passou a caber num telemóvel, as notícias deixaram o papel e, pouco a pouco, aqueles espaços foram perdendo movimento até desaparecerem.


Hoje, quem passa junto à estação sente a falta daquele cenário tão familiar. Fica o vazio onde antes havia cor, movimento e histórias. São estes pequenos lugares que muitas vezes definem a memória de uma comunidade. E quando desaparecem, levam consigo um pedaço da identidade de Algueirão-Mem Martins.
Porque uma estação não é feita apenas de comboios. É feita das pessoas, das conversas, dos encontros e também daqueles pequenos cantos onde, durante tantos anos, todos nós parámos para espreitar as notícias do mundo.

Pois, parece que vamos dizer adeus definitivamente aos quiosques em Algueirão Mem Martins...

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Tapada das Mercês: memórias de um local com história

Antes dos prédios, das ruas movimentadas e da vida acelerada dos nossos dias, a Tapada das Mercês era um lugar de silêncio, natureza e histórias escondidas entre árvores, caminhos de terra e antigas propriedades.


O próprio nome guarda a memória desse passado. Uma tapada era um espaço fechado, muitas vezes destinado à caça, ao descanso e ao contacto com a natureza. E foi nesse cenário, entre a paisagem de Sintra e os seus campos, que esta terra ficou ligada a uma das figuras mais importantes da história de Portugal: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, quando a região ainda era marcada por quintas, matas e propriedades senhoriais, a Tapada das Mercês fazia parte de um conjunto de terras associadas à família do Marquês de Pombal. Era um lugar de lazer, de caça e de tranquilidade, onde a nobreza procurava afastar-se da agitação da vida política e da corte.

Foi também aqui que ficou a memória da Casa Pombal, construída em 1765 por iniciativa do Marquês de Pombal e oferecida ao seu filho, Paulo de Carvalho e Mendonça. Esse solar representava a presença de uma família poderosa numa paisagem que, nessa época, ainda mantinha o encanto rural característico da região de Sintra.


A poucos quilómetros dali, a Granja do Marquês reforçava esta ligação da família Pombal às terras de Sintra, numa época em que as grandes propriedades eram espaços de produção agrícola, de descanso e de afirmação social.

Mas o tempo mudou tudo. Onde antes existiam campos, árvores, animais e caminhos antigos, nasceram novas ruas e novos bairros. A pequena paisagem rural transformou-se numa zona urbana cheia de vida, com milhares de histórias de moradores que ali construíram as suas próprias memórias.

Apesar das mudanças, o nome Tapada das Mercês continua a ser uma ponte para o passado. Quando hoje se percorrem as suas ruas, talvez seja difícil imaginar que por ali passaram outros tempos: o som dos passos nos caminhos de terra, a sombra das árvores antigas e a presença de uma época em que estas terras pertenciam ao mundo das quintas e dos senhores.

A Tapada das Mercês não é apenas um lugar no mapa. É uma página viva da história de Sintra, onde o presente cresceu sobre as marcas de um passado que merece ser lembrado.

FONTE: Museu do Ar: As propriedades conhecidas por Granja do Marquês e Quinta das Mercês, foram arrendadas ao Estado Português pelo 5º Marquês de Pombal, por um período de 30 anos pelo valor de 84 000 réis, com o intuito de fundar um estabelecimento que ministrasse o ensino da prática agrícola.