
Houve um tempo em que o centro de Mem Martins pulsava vida de manhã à noite, durante todo o ano, como se cada rua tivesse o seu próprio coração. Nos anos 80 e 90, caminhar pelo centro da vila era um ritual quase diário, um encontro certo com rostos conhecidos, montras cuidadas e um vaivém constante de gente que vinha não só da Linha de Sintra, mas também de Mafra, Amadora e até de Lisboa.
Não era por acaso que muitos lhe chamavam o “Chiado da Linha de Sintra”. Havia boas lojas — daquelas que sabiam o nome dos clientes — com roupa para todas as idades, calçado de qualidade, artigos de decoração que enchiam as casas de novidades e bom gosto... e ir à Lucanda, à Targo...
As pastelarias eram pontos de encontro obrigatórios e os restaurantes faziam parte da rotina de quem ali trabalhava ou passeava. Tudo estava vivo, cuidado, pensado para quem ali vivia.
Ao fim de semana, o centro transformava‑se num verdadeiro passeio. As famílias desciam a rua sem pressa, os jovens encontravam‑se nas esquinas, os mais velhos sentavam‑se a conversar. O sábado trazia ainda a feira, com fruta e legumes saloios de qualidade, cheiros a terra fresca e cores que enchiam a vista. Era ali, entre sacos de compras e cumprimentos, que se sentia a alma da vila.
Mas era no Natal que Mem Martins se tornava especial. O frio misturava‑se com a animação das ruas cheias e com um cheiro inconfundível a bolo‑rei acabado de sair do forno. Bastava passar perto da Central, do Granada ou do Galeão para sentir no ar a doçura da época, e já havia fila à entrada para levar um Bolo Rei para casa... e no Largo da estação podíamos levar o pinheiro para fazer a árvore de Natal lá de casa.
As montras enfeitadas, as luzes refletidas nas janelas, o movimento constante de pessoas carregadas de embrulhos criavam uma atmosfera quente, humana, memorável. Comprava‑se localmente, conversava‑se, ria‑se. O Natal vivia‑se na rua.
Hoje, o contraste dói. O centro da nossa freguesia e o Largo da Estação são marcados por edifícios envelhecidos, muitos deles a precisar urgentemente de restauro. As ruas estão mal iluminadas, sem atracções, sem motivos para ficar. As pessoas já não circulam, não passeiam, não vivem o espaço. Onde antes havia encontro, há pressa; onde havia comércio vivo, há portas fechadas.
Fica a memória — e com ela a certeza de que Mem Martins já soube ser um centro vivo, bonito e desejado. Um lugar onde o comércio fazia parte da identidade da vila e onde a rua era, acima de tudo, um espaço de convivência. Recordar esse tempo não é apenas nostalgia; é também um lembrete de tudo o que ainda pode voltar a ser.




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