18/08/2014

Memórias de Família - Para inglês ver

Não foi na Primeira Guerra Mundial que nasceu a expressão “para inglês ver” mas ela parecer ter sido talhada para um dos episódios passados na guerra que Gaspar Santos, português que foi oficial médico do Corpo Expedicionário Português em França, mais contava em família e que os punha a todos a rir lá em casa, contaram ao PÚBLICO a sua neta, Leonor Santos, e o seu filho, Emílio Santos.
Gaspar Santos esteve em França de Maio de 1917 até Agosto de 1918. Um dia um soldado português foi trazido, sob prisão, por um oficial inglês “por ter andado a roubar sulipas para se aquecer”, aquelas travessas da madeira em que assentam os carris de caminho-de-ferro, explica a neta. O oficial inglês vinha denunciar a grave falha ao oficial português mais graduado, para que tomasse medidas. Gaspar Santos pôs semblante carregado. O tom veemente com que estava a falar ao seu conterrâneo fazia-o parecer solidário com o inglês mas o aparente ralhete foi algo como: “então você deixou-se apanhar pelo inglês, tem que roubar mas não pode deixar que os ingleses o apanhem e não se atreva rir-se”, reconstitui Leonor Santos, que tem 52 anos e ainda conviveu com o avô durante 24 anos.
Para Leonor Santos, este episódio cómico é bem o espelho da pessoa que o avô era. “Um homem fantástico, inteligentíssimo”, um militar que se via sobretudo como médico e que distinguia bem entre “ordens estúpidas e ordens inteligentes”, ele fazia por apenas acatar as segundas, diz. “Quando não faziam sentido não eram para se cumprir”. Como oficial, Gaspar Santos tinha uma vida privilegiada face aos soldados, mas conhecia-lhes as dificuldades, conta o filho, sabia bem que as condições miseráveis em que viviam os soldados portugueses, que para se aquecerem até a sulipas de linhas férreas tinham que recorrer. “Foi médico militar até ao resto dos seus dias mas não havia pessoas mais antimilitarista”, lembra o filho. A cena termina com o oficial inglês a agradecer-lhe a reprimenda.

Neta e fillho lembram também como ele lhes contava como faziam pouco dos portugueses por andarem agasalhados com as pelicas alentejanas de pele de carneiro e que por causa dessa vestimenta lhes começaram a chamar mé-més. Os franceses também encaravam com estranheza o facto de os portugueses lhes irem às hortas roubar as folhas dos nabos, que eles não aproveitavam. Como estavam incorporados nas tropas inglesas, serviam-lhes rações daquele país, e o que eles queriam era “a sopinha portuguesa”, comenta Emílio Santos.
O espírito independente do avô esteve presente até ao fim da vida, conta Leonor Santos. “Quando os netos lhe faziam uma pergunta nunca nos dava a solução, punha-nos a pensar”, andava sempre a dizer-lhes “é preciso exercitar a massa cinzenta”.

Leonor Santos lembra que este seu espírito independente esteve presente desde cedo. O avô acabou o curso em 1915 e, nessa altura, escolheu como tese de final de curso a questão do aborto como um problema de saúde pública. “O júri não o deixou defender a tese, deram-lhe uma tese em substituição que já estava feita. A cabeça andava mais à frente do que o seu tempo”. O avô era também membro da Maçonaria.
A família dá mais importância a estas memórias vivas do que aos objectos que ficaram desse tempo. Mas ainda restam alguns lá por casa, algumas fotos, cartas e postais, o capacete enferrujado, o capote usou-o filho  até ficar estragado e as fardas estiveram num baú mas acabaram por ser comidas pelas traças, conta Emílio Santos.

A ida para França, e antes disso (entre 1916 e 1917) a sua colocação no Norte de Moçambique, onde esteve também durante a Primeira Guerra Mundial com a Cruz Vermelha, serviu indirectamente à família para conhecer os hábitos dos seus antepassados desse tempo. Porque ficou muita da correspondência que a família lhe mandava. Ele era o segundo mais velho de oito irmãos. Se não fosse a guerra talvez Leonor não soubesse tanto de como eram as suas vidas naqueles tempos em Portugal, de como eles viviam em Lisboa e iam passar as suas férias à Trafaria e à Algueirão, que hoje são subúrbios de Lisboa. O avô guardou as muitas cartas que recebia da família e Leonor acha sempre piada ao postalinho do lagarto do Jardim zoológico de Lisboa enviado para França ao irmão que estava na guerra pela irmã mais nova. Com apenas oito ano a pequena Marieta, de oito anos, terminava a carta para o seu “querido Gaspar” com a espontaneidade de quem é criança: “já estou maçada de escrever”.

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