sexta-feira, 23 de março de 2018

[Observador] Papillon juntou-se a Slow J: o hip hop em 2018 não vai ser o mesmo [video]

"Talvez esta seja a hora deste boy bazar para a terra prometida", rima Slow J no primeiro álbum de Papillon, revelado esta semana. "Isto sou eu", resume o rapper ao Observador.
Papillon (Rui Pereira), rapper português de 27 anos, acaba de lançar o seu álbum de estreia, "Deepak Looper"

Slow J (João Batista Coelho) estava ainda longe de provocar um abalo sísmico no hip hop nacional com The Art of Slowing Down, álbum que confundiria rótulos e etiquetas, festa musical desenfreada com discurso próprio a acompanhar. Antes de o fazer, antes mesmo de lançar o trabalho que antecederia esse disco (The Free Food Tape), ainda focado na produção musical e composição instrumental (trabalhava então no estúdio Big Bit), fez uma lista com os rappers com quem gostava de trabalhar. Papillon estava no topo, diz Slow J ao Observador — e isso foi só o início da história de Deepak Looper, o primeiro álbum a solo de Papillon que chegou esta quarta-feira ao mercado nacional.

O nome de Rui Pereira, 27 anos, não fará soar alarmes mas o nome de MC que o jovem nascido em Lisboa e residente em Mem Martins escolheu, Papillon, já dirá alguma coisa aos que seguem mais atentamente o novo hip hop nacional. Até aqui só com trabalhos editados com o seu grupo, GROGNation (entre eles alguns EPs e um primeiro álbum editado em 2017), Papillon (já explicará o nome) sabia que a hora de assumir protagonismo a solo chegaria. Que ela chegasse tão cedo, nem ele esperava.
O encontro resume-se assim: depois de fazerem um tema juntos (“Pagar as Contas”), Rui Pereira trabalhava num bar — “a servir tapas e vinho” — para se sustentar enquanto fazia música. Slow J, já com notoriedade acrescida depois de encher salas pelo país (dos estúdios Time Out, no Mercado da Ribeira, ao palco secundário do Super Bock Super Rock — este ano atua no principal –, do Rock Nordeste em Vila Real ao Hard Club do Porto em dose dupla e esgotada), investiu nele.
Ele quase me obrigou a fazer o álbum, foi ele que insistiu e disse: mano, tu tens mesmo que fazer, tens mesmo que fazer. Deu-me o apoio necessário para fazer isto acontecer, a nível de produção [musical] e do investimento que tivesse de ser feito para fazer o projeto”, conta Papillon, que apresenta o álbum ao vivo dia 13 de abril, no estúdio Time Out do Mercado da Ribeira, em Lisboa (a noite conta uma atuação do rapper Keso e um DJ de Fumaxa). No último trimestre de 2017, os dois começaram a trabalhar num armazém alugado por João Batista Coelho na Abóbada, a 20 km do centro de Lisboa.
O que Slow J quer montar no seu novo espaço não é uma produtora ou editora com objetivos quantificáveis (de edição ou retorno), é um lugar de trabalho para a sua música a solo e para as colaborações que quer estabelecer, para os projetos que quer apoiar. Como o primeiro disco de Papillon, dono de uma voz que pela ambição promete impor-se na música nacional. “Não tenho propriamente nome para isto. O que queria era ter a capacidade de colaborar com mais e mais pessoas, criar uma equipa ou família e potenciá-la”, garante João Batista Coelho ao Observador. Papillon é um dos novos membros e apresenta-se assim ao Observador: "Eu não penso em casas nem em carros, sendo muito sincero. Eu quero fazer coisas grandes, só quero fazer boa música e de que as pessoas gostem. Quero conseguir ajudar a malta do Slow J — porque estamos a trabalhar juntos — e a malta da GROGNation. Quero que nós consigamos continuar a viver dos nossos sonhos e quero tornar-me um exemplo de um puto que está a seguir os sonhos dele e que está minimamente confortável na vida por isso mesmo.”

Isto é hip-hop 2.0

Se Slow J, autor de grande parte das composições, foi mestre de cerimónias, a ele juntaram-se alguns dos produtores (ou compositores de batidas) mais talentosos do novo hip hop nacional, que (sinal dos tempos) trocou o lo-fi dos anos 1990 e 2000 pelos beats mais requintados e luxuriantes. Fumaxa (FMX), Lhast ou Holly uniram-se todos, explica João Coelho, por reconhecerem o talento de Papillon para as rimas. Este apurou-o no ouvido a ouvir Boss AC e Sam the Kid (as referências de ontem e de hoje) e na língua afiada em viagens de comboio de Mem Martins, Sintra para Lisboa, em batalhas de rimas na Liga Knockout, em temas escritos para o seu grupo e “em casa, ao som de instrumentais de Jay-Z, J. Cole e Kendrick Lamar”.

[Uma das “batalhas” de rimas de Papillon na Liga Knockout, um campeonato destinado a esses embates:]
Deepak Looper é um objeto estranho ao hip hop tradicional (o boom bap inspirado nos anos 1990) e ao trap mais retilíneo de 2018. “Isto não é rap, trap ou boom bap”, constata aliás Papillon na última faixa do disco, “Metamorfose Fase II”. As guitarras, as teclas, as baterias e as batidas eletrónicas passeiam-se por vários géneros e lugares, da América do Sul a África, de Nova Iorque a Atlanta e Linha de Sintra. Há balanço de afro-festa em “Iminente” (com participação do rapper Plutonio), há melancolia terna em “Impec” e “Imagina”, há aceleração funk à Da Weasel em “Impressões”, há uma intensidade desconcertante em “Imbecis Iman” e “Im the Money”.
Euforia e disforia caminham lado a lado:
“‘Tou à porta do cubículo e ainda ’tou-me a sentir supreme 

15 minutos só p’ra acertar a chave no trinco 
mas o meu cota é que abre a porta e os feelings voltam-me a surgir 
porque eu ’tou a entrar p’ra dormir 
enquanto ele sai para bulir”



Assim rima Papillon em “Imediatamente”. Deepak Looper não é um álbum de protesto, de afago do ego, de reflexões sobre dinheiro e família, amor e caminho para chegar à felicidade, expetativas sociais e embate entre gerações. É tudo isso visto pelos olhos de Papillon, são os sonhos escritos num caderno que é smartphone e que Rui Pereira queria mostrar ao mundo.
Nunca tive oportunidade de me dar realmente a conhecer às pessoas. O meu grupo tem uma identidade própria. É a primeira vez que as pessoas que ouvirem vão ter a minha versão mais honesta, aquilo que eu sou — tanto a nível de sonoridades musicais como a nível do que tenho para dizer. Isso acontece porque é um projeto meu. Quer as pessoas gostem ou não, isto sou eu”, diz Papillon.
Se as mensagens a reter no disco são muitas, uma das principais é que até os sonhos mais ridicularizados devem ser seguidos. Passemos os disparos no porta-aviões do pensamento crítico e conservador face às “novas gerações” de “Imbecis Iman” e demos a palavra ao rapper em “Impressões”:
“Os cotas querem que eu seja alguém na vida 

que estude muito, me forme e vire doutor 
e já que tiveram a chance perdida 
passaram o testemunho ao filho sucessor. 
Porque é que achas que não sou alguém na vida? 
O que é que falta para tu me dares valor? 
De todas as coisas que a vida nos ensina 
dá para aprender a ser feliz, por favor?”

Mais tarde, no mesmo tema, muda o alvo mas não a direção:
“Os stores querem sempre silêncio na sala 

os stores nunca têm paciência para mim”

Quero transmitir a ideia de transformação para melhor. O meu nome Papillon vem daí. As pessoas acham que não é propriamente um nome de rapper, mais facilmente pensariam num AK47, que representa melhor um macho-alfa, mas a metamorfose da borboleta vem da vontade de dizer às pessoas que a transformação é possível. Quero ser o embaixador disso, quero ser o tipo que assume que é possível mudar para melhor, transformar e evoluir.”
A crise, diz Papillon, “só mostrou que nada é constante, estável — tirando a morte. E, se vamos morrer de qualquer forma, mais vale morrer por uma coisa de que gostamos, que nos dá vida. Mesmo que não nos dê toda a ‘guita’ que queríamos, pelo menos deixa-nos saudáveis mentalmente”, recomenda o rapper.
Papillon diz que o álbum de Slow J, The Art of Slowing Down, fê-lo sentir que o caminho certo era fazer o que lhe dava mais gozo — no seu caso, música. “Ouvir o álbum fez-me quase sentir validado, perceber que não tenho que seguir as regras. Eu estava a trabalhar num bar a servir tapas e vinho e não parei de fazer música por causa disso. Sinto-me livre para fazer o que me apetece. E na prática o dinheiro vai sempre existir — se não fizer dinheiro na música, faço noutra coisa qualquer. Acredito que se seguir a minha paixão ele vai inevitavelmente aparecer. Mas se não aparecer, mano… trabalho é o que não falta”.
[A primeira colaboração entre Slow J e Papillon resultou no tema “Pagar as Contas”, incluído no primeiro álbum de Slow J, ‘The Art of Slowing Down’:]
O tema do sustento económico não é novo para Papillon, que já tinha rimado sobre ele nas faixas “Money”, com o rapper Prof Jam e “Pagar as Contas”, com Slow J. “Im the Money”, incluída no seu álbum, é “o fecho da trilogia”. É um tema que lhe interessa: “No início achava que o dinheiro era a causa dos problemas. Hoje acho que o problema é a forma como as pessoas lidam com ele. Mesmo na minha família senti que o dinheiro — a falta dele — sempre foi um peso, sempre foi visto como o grande problema da minha família. Acho que se não estivéssemos estado sempre focados nesse problema, podíamos ter dado a volta a algumas coisas”.
A relação com a família origina aliás um dos momentos mais vulneráveis e críticos de Deepak Looper, um álbum que, diz Papillon, “é a minha [sua] história”. Chama-se “Imagina” e contém os seguintes versos:
“Nunca vi os meus pais trocarem um beijo

Amor? Todos falam dele mas eu nunca o vejo.
Separaram-se eu era puto

(…)
Vi a discussão dos dois da primeira fila 

Dizem que me amam e eu finjo que acredito 
Se isso fosse verdade, não precisava ser dito
e chegou-me ao ouvido como poderia ter sido 
melhor a vida deles se eu não tivesse nascido. 
O pai emigrou para a Alemanha, eu fiquei para trás
a mãe casou em Angola, eu virei um rapaz. 
Vale tudo para subir na vida, certo, 
no fundo sou apenas fruto de algo que não deu certo. 
Filho de pais ausentes, pertenço a esse nicho 
prenda do dia da mãe guardei até deitar para o lixo. 
Ganhei centímetros no caminho mas perdi o carinho 
por cada coisa que eu aprendi a fazer sozinho. 
Eles deram o melhor que podiam, isso é o que dói mais, 
dizem que um dia vou trocar de lugar com os meus pais. 
Só que vou amar de verdade o meu par, no meu lar 
e o ao meu filho eu vou dar todo o amor que eu… 
nunca senti”.


[“Amar para Esquecer” foi um dos temas incluídos no primeiro álbum da GROGNation, coletividade a que Papillon pertence:]
Previsões sobre que repercussões terá um álbum tão eclético — e como será recebido pelo público –, Papillon não faz. Mas a auto-confiança sente-se até nos temas:
“Não faço música negra nem música branca / é catering para a alma, para o pensamento e para a anca”, atira num dos temas.
“Sou inútil para a sociedade. 

Para subir na vida ’tá lixado 
então eu subo para o telhado. 
Aquilo que o meu pai não sabe 
é que hoje eu vou-me mandar”

Dispara na faixa inicial, IAM. A dado ponto do tema, é a voz de Slow J que traduz o momento: “Talvez esta seja hora deste boy bazar para a terra prometida / porque está na hora de acordar para a vida”.
Sentado no estúdio onde gravou o álbum, Papillon desabafa: “Às vezes sinto que o que nos trava somos nós próprios, somos nós que nos impedimos a nós mesmos de chegar ao sonho a que queremos chegar. Seja por velhos hábitos que temos, por crenças que não nos ajudam a progredir”. Isso ficou para trás: “A música é aquilo que eu quero fazer, que faço bem e é o que resulta na minha vida. Sinto que estou a ir para a frente”. O hip hop, esse acompanha o ritmo, dança e segue em diante.

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