Tempo em Algueirão Mem Martins

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Ermida de São Romão

A fundação é atribuída ao século XII, portanto é um dos elementos históricos mais antigos da freguesia. Foi construída aproveitando materiais romanos que já existiam no local. A zona envolvente possui importantes vestígios arqueológicos romanos e pré-históricos, sendo identificada no PDM como Estação Arqueológica de São Romão. No século XVI sofreu uma importante remodelação, incluindo alterações na capela-mor. Em 1921 foram observados vestígios de pinturas murais com cores vermelha e amarela. 

Em 1956 houve uma tentativa de recuperação: chegou a existir uma subscrição pública e o arquiteto Norte Júnior elaborou um projeto para um novo templo, mas a obra não avançou. Já em 1758, a ermida era mencionada nas Memórias Paroquiais. Do local das ruínas saíram também monumentos com inscrições, associados à ocupação romana.

As ruínas da Ermida de São Romão chegaram a constar de processos de proteção patrimonial no município de Sintra. 

Pia Batismal da Igreja do Telhal

Dentro da Igreja da Casa de Saúde do Telhal existe um pormenor que muitas vezes passa despercebido: a sua pia batismal em granito.


A peça é constituída por uma pequena coluna e por vários tambores de épocas diferentes, terminando numa taça hemisférica estriada. Esta particularidade torna a pia especialmente curiosa, pois revela que o seu conjunto foi sendo formado ou reaproveitado ao longo do tempo.

O batistério onde se encontra também merece atenção. As paredes apresentam um revestimento de azulejos azuis e brancos, enquanto a cobertura possui uma decoração em estuque com anjos e grinaldas de flores.

Mais do que um simples objeto religioso, a pia batismal é uma pequena testemunha da história do templo e das pessoas que, ao longo de gerações, passaram por este espaço para celebrar o Batismo.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

38 anos do Incêndio na Printer/Duraplás

Em setembro de 1988, um incêndio de grandes proporções na zona industrial de Mem Martins colocou bombeiros, empresas e população perante uma realidade preocupante: os riscos eram elevados, mas os meios para lhes fazer frente eram insuficientes.


A notícia, publicada a 30 de novembro de 1988, dava conta das consequências do incêndio ocorrido no dia 17 de setembro, que atingiu as instalações das empresas Printer e Duraplas. O fogo destruiu duas fábricas e provocou ferimentos em cerca de 60 bombeiros, levantando sérias dúvidas sobre as condições de segurança existentes naquela zona industrial.

Segundo os relatos dos bombeiros de Algueirão-Mem Martins, o combate às chamas foi particularmente difícil. As instalações armazenavam materiais e produtos potencialmente perigosos e, durante a operação, chegaram a ocorrer explosões, com o incêndio a atingir dezenas de viaturas. Mas o fogo não revelou apenas os perigos existentes nas fábricas. Trouxe também para a primeira linha de discussão um problema que os bombeiros já vinham denunciando: a falta de equipamento adequado para combater incêndios industriais. A corporação de Algueirão-Mem Martins alertava para a necessidade de meios específicos, como máscaras, fatos de proteção e equipamentos capazes de lidar com produtos químicos. Os bombeiros consideravam que os materiais disponíveis eram insuficientes perante incêndios daquela dimensão.

Uma zona industrial demasiado próxima das habitações
Outro dos grandes problemas apontados na reportagem era a localização da zona industrial. Na época, existiam dezenas de unidades industriais e algumas encontravam-se próximas de zonas habitacionais. Os responsáveis pelos bombeiros manifestavam preocupação com a possibilidade de um incêndio de maiores dimensões ultrapassar os limites das instalações industriais e atingir áreas residenciais. A reportagem levantava, assim, uma questão que continua a ser importante quando se fala de planeamento urbano e segurança: até que ponto é seguro ter determinadas atividades industriais junto das zonas onde vivem milhares de pessoas?


1.600 contos de prejuízos
Além dos riscos para as pessoas, o incêndio provocou elevados prejuízos materiais. A notícia fala em cerca de 1.600 contos de perdas nas duas fábricas atingidas. Entre o material danificado encontravam-se 11 mangueiras, 30 fatos, 200 litros de espuma, 855 litros de combustível e outros equipamentos, além de danos provocados nas viaturas utilizadas no combate ao incêndio. Para os bombeiros, porém, a questão não se resumia ao dinheiro. O episódio demonstrava a necessidade de reforçar os meios de prevenção e de combate aos incêndios industriais.

Uma notícia que ficou para a história de Mem Martins
Lida hoje, esta reportagem é também um interessante retrato de Algueirão-Mem Martins no final dos anos 80. A expansão industrial, o crescimento urbano e a proximidade entre fábricas e habitações começavam a colocar novos desafios às autoridades e às corporações de bombeiros. 
Mais do que contar um incêndio, a notícia de 1988 deixa um alerta: uma tragédia pode revelar problemas que já estavam identificados muito antes de acontecer.

Quase quatro décadas depois, este documento de imprensa constitui uma importante memória local e ajuda-nos a perceber como era a realidade industrial e urbana de Algueirão-Mem Martins em 1988 — e as preocupações que já existiam nessa altura com a segurança da população.

Fonte: recorte de imprensa, 30 de novembro de 1988.



Elevação a Cidade

A antiga vila de Agualva-Cacém foi elevada oficialmente a cidade pela Lei n.º 34/2001, de 12 de julhoNa altura, o processo justificava-se pelo crescimento populacional, equipamentos, comércio, indústria, transportes e serviços. A proposta parlamentar de 1996 já dizia que Agualva-Cacém reunia os requisitos previstos na legislação para ser cidade.

E Algueirão-Mem Martins? Aqui está a parte curiosa: Algueirão-Mem Martins chegou a ter um projeto de lei para passar a cidade! Em 12 de maio de 1997, foi apresentado na Assembleia da República o Projeto de Lei n.º 358/VII – Elevação de Algueirão-Mem Martins à categoria de cidadeE a proposta era bastante clara: dizia que a vila tinha cerca de 55.600 habitantes, forte atividade comercial e industrial, escolas, transportes rodoviários e ferroviários, mercados, serviços, etc., concluindo que cumpria os requisitos legais para ser elevada a cidade.

Mas o projeto não avançou até à criação da cidade. Algueirão-Mem Martins permaneceu vila, categoria que possui desde 1 de fevereiro de 1988. E há ainda uma ironia interessante: o próprio Plano Diretor Municipal de Sintra de 2020 trata Algueirão-Mem Martins como um dos principais núcleos urbanos do concelho, prevendo um “Plano de Urbanização de Algueirão-Mem Martins, incluindo Rio de Mouro”, enquanto Agualva-Cacém tem o seu próprio plano de urbanização como cidade.

Ou seja: Algueirão-Mem Martins não é vila por ser pequena ou pouco desenvolvida. É vila porque nunca chegou a ser aprovada a sua elevação a cidade.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Saloios

Quando ouvimos falar em saloios, pensamos muitas vezes nas zonas rurais que rodeavam Lisboa, nas hortas, nos agricultores e nos produtos que chegavam à cidade. Mas a palavra saloio tem uma história muito mais rica.

O que significa “saloio”? 
Tradicionalmente, chamavam-se saloios às populações rurais que viviam nos arredores de Lisboa, sobretudo na região conhecida como Região Saloia. Esta região abrangia diversos territórios dos atuais concelhos de Sintra, Mafra, Loures, Odivelas, Amadora e Cascais, entre outros locais próximos da capital.

Os saloios viviam sobretudo da agricultura e da criação de animais. Cultivavam trigo, milho, legumes, frutas e outros produtos agrícolas, que eram posteriormente vendidos ou transportados para Lisboa. Uma ligação muito forte a Lisboa. Durante séculos, Lisboa dependia bastante das terras que a rodeavam.

Os saloios tinham, por isso, um papel importante no abastecimento da cidade. Todos os dias chegavam a Lisboa produtos provenientes das zonas rurais vizinhas, transportados por carroças, animais e, mais tarde, por outros meios de transporte.

Era uma relação de proximidade entre a cidade e o campo: Lisboa consumia e a região saloia produzia.

E de onde vem a palavra “saloio”? 
A origem da palavra não é totalmente consensual. Uma das explicações mais divulgadas relaciona “saloio” com o termo árabe “ṣaḥrāwī”, associado a quem vive no campo ou no deserto. Ao longo dos séculos, a palavra passou a ser utilizada para designar as populações rurais dos arredores de Lisboa. Com o tempo, “saloio” deixou também de ser apenas uma designação geográfica ou social e passou a fazer parte da identidade cultural da região.

Os saloios de Sintra
A zona de Sintra tem uma ligação particularmente forte à cultura saloia. Muito antes da enorme expansão urbana que conhecemos atualmente, grande parte do território era constituída por campos agrícolas, quintas, casais e pequenas povoações. Locais que hoje fazem parte da área metropolitana de Lisboa tinham uma vida profundamente ligada à agricultura. Algueirão e Mem Martins não ficaram à margem dessa transformação.  O crescimento urbano alterou profundamente a paisagem e o modo de vida local, mas muitos nomes de lugares, quintas, caminhos e tradições ainda recordam esse passado rural.

Saloio não é sinónimo de “ignorante”
É importante esclarecer uma ideia que ainda hoje pode causar alguma confusão. A palavra “saloio” também foi utilizada de forma depreciativa, para caracterizar alguém considerado ingénuo, pouco sofisticado ou rude. Mas esse significado não corresponde à origem histórica do termo. Ser saloio, no seu sentido tradicional, está relacionado sobretudo com uma população rural dos arredores de Lisboa e com uma determinada forma de viver, trabalhar e relacionar-se com a terra.

Hoje, a região está profundamente urbanizada e integrada na Área Metropolitana de Lisboa. No entanto, a identidade saloia continua presente em muitos aspetos da cultura local: na gastronomia, nas festas e tradições populares, nas antigas quintas e propriedades agrícolas, nos produtos da terra, na arquitetura rural, nas histórias e memórias das populações, e até em muitos nomes de lugares.

Por isso, quando falamos dos saloios, não estamos apenas a falar de pessoas que viviam no campo. Estamos a falar de uma população, de um território, de uma cultura e de uma parte importante da história dos arredores de Lisboa.

E Algueirão–Mem Martins? A história de Algueirão–Mem Martins também pode ser contada através dessa transformação: de um território marcado por quintas, campos e atividades agrícolas para uma das zonas urbanas mais populosas do concelho de Sintra. Conhecer o passado saloio da região é, por isso, uma forma de compreender melhor como era Algueirão–Mem Martins antes da urbanização que hoje conhecemos.