Tempo em Algueirão Mem Martins

sábado, 15 de novembro de 2025

Feira de Fanares

A antiga feira de Fanares tinha um encanto próprio, daqueles que só quem cresceu em Algueirão Mem Martins conhece bem.

Realizava-se religiosamente ao sábado e à quarta-feira de manhã, quando ainda o sol mal tinha acordado e já se sentia no ar o movimento apressado das bancas a serem montadas. O cheiro a fruta saloia — doce, fresca, de cores vivas — enchia o espaço inteiro. Eram morangos, maçãs, laranjas, figos e uvas de uma qualidade que parecia impossível de encontrar noutro lugar. A fruta vinha ainda com o toque da terra, e com as histórias dos agricultores que a criavam.

Ao passar o túnel estreito debaixo dos prédios, abria-se um novo universo. Ali encontrávamos de tudo um pouco: bancas de roupas empilhadas com camisolas de lã e casacos baratos, cassetes quase pirata com coletâneas improváveis, e aquelas verdadeiras “oportunidades” que só quem frequentava a feira entendia — coisas úteis, outras nem tanto, mas sempre com um charme especial.

No edifício principal da feira vivia outro ritual próprio: o peixe fresco da costa atlântica. As peixeiras eram figuras queridas, mulheres de voz forte e sorriso fácil, que conheciam o nome da maioria dos seus clientes. Sabiam quem gostava da pescada mais alta, quem queria a dourada mais brilhante, quem levava sempre uns carapaus para o almoço de domingo. Entre pregões, risadas e conversas sobre o tempo, transformavam a compra do peixe em algo muito mais pessoal.

A feira de Fanares era mais do que comércio. Era encontro, rotina, vizinhança viva. Um pedaço de Mem Martins que permanece na memória de quem lá passou — com saudade, com histórias, com aquele espírito simples e genuíno que já não se encontra em muitos lugares.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Chuva Utentes CP

Durante quanto tempo os utentes da CP da estação de Algueirão Mem Martins vão continuar com este cenário em dias de chuva??




Exposição "O Humor é Fixe! - As Caricaturas de uma Vida"

Na Quinta do Butler, em Mem Martins, com caricaturas dedicadas a Mário Soares, até dia 01 dezembro.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Corta-Mato no Agrupamento MDS, com presença de Patrícia Mamona

Corta-Mato na sede do Agrupamento Mestres Domingos Saraiva, no Algueirão. 

Os alunos de 3.º e 4.º ano participaram demonstrando que o importante é participar, dar o seu melhor e divertir-se! 

Com a presença da Patrícia Mamona, atleta olímpica e um verdadeiro exemplo de determinação e superação, que inspirou todos com o seu sorriso e simpatia. 


Parabéns a todos os participantes  



Externato Rainha Sta Isabel, em Fanares

Na tranquila rua de Fanares, em Mem Martins, existiu durante alguns anos o Externato Rainha Santa Isabel, uma pequena escola que marcou a infância de muitas meninas da zona. Funcionava numa moradia acolhedora, com o ambiente familiar e simples típico das escolas de bairro de outros tempos.

Era uma escola onde o riso das meninas — todas com o seu bibe cor-de-rosa, igual e inconfundível — enchia o pátio e as salas de madeira. As recordações desse tempo ainda vivem na memória de quem lá estudou: os cheiros, os cadernos cuidadosamente forrados, as vozes das professoras, o toque da campainha improvisada.

Hoje, a casa já não existe. Foi demolida, e no seu lugar ergue-se agora um prédio moderno, sem graça nem história, como tantos outros. Mas para quem ali passou a infância, o número da rua de Fanares onde se encontrava o Externato continua a guardar um pedaço de Mem Martins que já não volta — um tempo em que aprender era também brincar, e as escolas tinham alma.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Algueirão-Mem Martins acolhe nova sessão do Festival “Um Filme em Cada Esquina”

No próximo dia 14 de novembro, pelas 21h00, o Ponto Kultural, em Algueirão-Mem Martins, será palco de mais uma sessão do Festival Internacional de Cinema “Um Filme em Cada Esquina”.

A sexta sessão do Festival contará com a exibição três curtas-metragens de três diferentes países: Vegetalidade (Portugal, 2024), de Frederico Ferreira; 3 vendors of Ipanema (Estados Unidos, 2024), de Jonathan S. Lee; e Embrasse-moi (França, 2024), de Hristo Todorov. Após as projeções, o público será convidado a participar numa conversa com os realizadores, promovendo o diálogo e a partilha de experiências cinematográficas.


Mais cedo, às 15h, o evento contará com uma sessão dedicada à comunidade escolar, com o mesmo alinhamento de filmes e a conversa com os cineastas.

O Festival “Um Filme em Cada Esquina” visa criar uma alternativa ao circuito tradicional de cinema, promovendo uma cultura cinematográfica mais acessível. O projeto, que de maio de 2025 a abril de 2026, conta com 22 sessões distribuídas pelas freguesias do concelho de Sintra. Cada freguesia acolhe duas sessões, uma para o público escolar e outra para o público em geral.

Com uma periodicidade mensal, cada sessão integra a projeção de três a quatro curtas-metragens, seguidas de conversas com membros da equipa artística do festival, realizadores e outros profissionais do setor cinematográfico.

Este projeto é promovido pela RUGAS - Associação Cultural, em parceria com a produtora Cidades Irrequietas Filmes, e conta com o apoio da Câmara Municipal de Sintra.

Saiba mais sobre o projeto e as próximas sessões, AQUI.

A entrada é livre, sujeita à lotação do espaço.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

[sintranotícias] Fusão: Repartição de Finanças do Cacém vai encerrar e fica agregada a Algueirão-Mem Martins

Serviço de Finanças do Cacém (Sintra 3), a funcionar na loja do Cidadão na Cidade de Agualva-Cacém, vai encerrar em definitivo e fica agregado à repartição de Finanças de Algueirão Mem Martins (Sintra 2), a funcionar na Tapada das Mercês.


A Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) já deu seguimento à fusão do Serviço de Finanças de Sintra 3 com o de Sintra 2, no âmbito de uma estratégia nacional de otimização de recursos e modernização dos serviços. A decisão foi formalizada através do Despacho n.º 12921/2025, publicado hoje, em Diário da República.

A medida insere-se num contexto de “maximização da eficiência, eficácia e qualidade dos serviços” prestados pela AT, acompanhando o processo de desmaterialização e racionalização dos métodos de trabalho. A concentração dos dois serviços pretende, assim, melhorar as condições de atendimento e aumentar a proximidade com os cidadãos.

A reorganização permitirá um melhor aproveitamento dos recursos humanos e materiais disponíveis, contribuindo para uma resposta mais célere e eficaz às necessidades dos contribuintes. A medida enquadra-se ainda na política de modernização administrativa em curso, que aposta na digitalização e na simplificação dos procedimentos fiscais.

A AT justifica a fusão com a necessidade de racionalizar meios, promover a desmaterialização de processos e garantir um serviço mais próximo e eficaz aos cidadãos.

Limpeza das Sargetas


Esta semana foi feito na Rua do Coudel, em Mem Martins, algo que deveria ser comum, evitando a acumulação de água da chuva nos locais habituais...
A LIMPEZA DAS SARGETAS

 

SAUDADE do que era...

Houve um tempo em que andar pelo centro de Mem Martins era mais do que fazer compras — era fazer parte de uma família alargada. As ruas cheiravam a pão quente, a café moído e a perfume de domingo. Cada porta aberta tinha uma história, cada comerciante um sorriso, e todos sabiam o nome de quem entrava.

Logo pela manhã, o aroma irresistível da Padaria Primavera espalhava-se pela rua. O pão saía do forno ainda fumegante, e formava-se uma pequena fila de vizinhos que trocavam risos e notícias enquanto esperavam a sua vez. O padeiro, de avental branco, conhecia os gostos de cada freguês: “Um pão de Mafra para o Sr. António, duas carcaças para a D. Rosa, e um bolo para a menina que fez anos ontem.

Mais acima, a Pastelaria Granada era um verdadeiro ponto de encontro. As vitrines brilhavam com pastéis de nata e duchesses, e o som das chávenas misturava-se com o burburinho das conversas. Era lá que muitos marcavam encontro antes de apanharem o comboio, e onde se discutia o futebol e a vida — sempre com o sabor doce de um bolo acabado de sair do forno.


A poucos passos, a Pastelaria Fino Gosto tinha o nome certo: elegante, acolhedora, e com um toque especial nas receitas. O cheiro a açúcar e baunilha convidava a entrar, e os clientes sentavam-se junto às janelas para ver o movimento da rua. Era comum ver estudantes, casais e famílias inteiras ali reunidas, entre fatias douradas e risadas leves.

Mais ao fundo, o Restaurante Chaby era o orgulho da vila. As suas toalhas brancas e a comida caseira traziam gente de longe. Ali celebravam-se aniversários, almoços de domingo e reencontros de amigos. A cada prato servido, havia uma história contada, um brinde feito — e uma memória criada.

E mesmo ao virar da esquina, as montras do Pronto-a-Vestir Lucanda exibiam novidades que faziam sonhar. Entre vestidos coloridos e camisas engomadas, as senhoras escolhiam com cuidado o traje para uma festa ou o casaco novo para o inverno. A dona da loja, sempre atenta, sabia o gosto de cada cliente: “Este fica-lhe bem, D. Maria, é a sua cor.

Ao cair da tarde, quando as portas começavam a fechar e o último comboio passava ao longe, ficava no ar um sentimento de pertença. Cada loja, cada balcão, cada rosto conhecido fazia parte de um tempo em que o comércio local era o coração vivo de Mem Martins — e onde o valor maior não era o troco, mas a confiança.

Hoje, quem passa por essas ruas talvez já não veja os mesmos letreiros. Mas quem as viveu, ainda as sente. Porque o verdadeiro centro de Mem Martins não era de pedra nem de asfalto — era feito de pessoas, aromas e memórias que continuam a morar no coração de quem lá cresceu.

terça-feira, 28 de outubro de 2025

[sintranoticias] Tiago Neves piloto de Mem Martins transforma contratempos em triunfo

O piloto sintrense Tiago Neves, natural de Mem-Martins, alcançou uma vitória de destaque no Autódromo Internacional do Algarve, durante a quarta ronda do campeonato Single Seater Series. Num fim de semana marcado por contratempos mecânicos, o piloto demonstrou resiliência e frieza ao volante do Formula Ford Mygale SJ99.



Desde os treinos livres, a jornada revelou-se um verdadeiro teste à determinação da dupla Tiago Neves / Sandro Carvalho. No seu segundo fim de semana de competição em monolugares, o piloto teve de se adaptar rapidamente às exigências técnicas e desníveis do circuito de Portimão, enquanto lidava com falhas de aceleração e temperaturas elevadas no motor, fatores que obrigaram a uma gestão criteriosa do ritmo em pista.

A qualificação foi particularmente difícil. Ainda assim, o piloto garantiu presença na grelha de partida.

Na Corrida 1, os problemas persistiram, mas a determinação falou mais alto. Após perder momentaneamente a posição para Carlos Gaspar logo na largada, Tiago Neves respondeu de imediato, recuperando o lugar ainda na primeira curva. Consciente das limitações mecânicas e da experiência superior de Francisco Olho-Azul, o piloto sintrense optou por gerir o ritmo e controlar as temperaturas do motor.

A estratégia revelou-se eficaz: nas voltas finais, Francisco Olho-Azul enfrentou problemas mecânicos que o afastaram da luta pela vitória, permitindo a Tiago Neves cruzar a meta em primeiro lugar. A corrida terminou sob o regime de Safety Car.

Na Corrida 2, embora as falhas persistissem, as temperaturas mais amenas permitiram um desempenho mais consistente e tempos mais competitivos. Um novo pico de temperatura a meio da prova obrigou o piloto a abrandar, garantindo ainda assim o segundo lugar, resultado da sua gestão meticulosa e da prioridade em preservar a mecânica.

“Tentámos dar o nosso melhor. No início do fim de semana cheguei a pensar que não íamos terminar nenhuma corrida. Mas, com a ajuda de outras equipas e alguma cabeça fria para levantar o pé quando era preciso, acabámos por conseguir resultados melhores do que o esperado. Terminámos com o 1.º lugar na Corrida 1, fruto da infelicidade do Francisco, e um 2.º na Corrida 2”, afirmou Tiago Neves no final da prova.

Fonte: https://sintranoticias.pt/2025/10/28/tiago-neves-piloto-de-mem-martins-transforma-contratempos-em-triunfo/

Veraneantes em Algueirão Mem Martins

Antes de Algueirão Mem Martins se transformar num dos principais centros urbanos dos subúrbios de Lisboa, e a freguesia com mais habitantes de Portugal, era apenas uma aldeia discreta, rodeada de quintas e pinhais, onde o ar fresco natural da Serra de Sintra atraía famílias da capital em busca de descanso.


No início do século XX, quando a ligação ferroviária entre Lisboa e Sintra se consolidou, Algueirão Mem Martins tornou-se um ponto de paragem para quem desejava ficar "perto da serra”.

O comboio - símbolo de progresso e elegância - permitia que famílias abastadas de Lisboa viajassem facilmente até à vila de Sintra. Chegavam com bagagens, criadas e crianças, para passar semanas ou meses em casas alugadas ou propriedades próprias.

Entre os veraneantes, várias famílias conhecidas deslocavam-se até cá. Eram casas de linhas românticas, com azulejos e alpendres onde se tomava o chá com vista para a serra.

As manhãs começavam cedo, com o som distante do comboio e o cheiro do pão. Os veraneantes passeavam pela estrada de terra que ligava Algueirão, Tapada das Mercês e a Quinta da Fanares, e de costume cumprimentavam os lavradores locais com um aceno educado. 

As senhoras visitavam as pequenas mercearias para comprar fruta fresca, leite e flores - produtos simples, mas “de uma pureza que em Lisboa já não se encontrava”, como escreveu um jornalista de 1932 no Diário de Notícias, referindo-se à calma bucólica de Algueirão Mem Martins.

Para os habitantes locais, a chegada das famílias de Lisboa era um acontecimento. Os meninos de cá corriam até à estação para ver “os senhores da cidade” e os seus modos refinados. 

Os veraneantes que passavam a temporada cá tinham pequenos rituais que se repetiam ano após ano. Um deles era a paragem obrigatória no Casal da Cavaleira e no Casal de São José, onde compravam ovos frescos, colhidos há poucas horas, vindos das galinhas que ali se criavam ao ar livre. Esses produtos, simples e genuínos, tornavam as refeições ainda mais saborosas.

Outro destino certo era o Moinho de Sacotes e do Algueirão, onde muitos iam levar o cereal para moer ou apenas buscar farinha acabada de fazer. O cheiro a grão moído e o som das mós a girar eram parte da paisagem sonora das férias na terra - um símbolo da vida calma e autêntica que os veraneantes tanto prezavam.


O Progresso Clube de Algueirão-Mem Martins, foi uma coletividade que surgiu nos anos 40, do século XX, fundada sobretudo por famílias vindas de Lisboa que tinham casas de veraneio na zona - uma época em que a vila ainda era fortemente rural e marcada pela cultura saloia. Esses lisboetas procuraram criar um espaço de convívio “à sua maneira”, com bailes, jogos e eventos sociais, distanciando-se da população mais rural, tanto em hábitos como em estatuto social.

O nome “Progresso” reflectia essa ideia de modernidade e distinção urbana, em contraste com a vida mais campestre da população nativa.

Enquanto outras coletividades de cá (Mem Martins Sport Clube e Recreios Desportivos do Algueirão) tinham uma base mais comunitária e local, com espírito mais rural, com gente de trabalho mas mais humilde.


O Progresso Clube manteve durante bastante tempo uma certa aura de exclusividade social e cultural.


Nos dias quentes de verão, os veraneantes divertiam-se ao passear pelas nossas  ruas soalheiras, sempre com a humidade oriunda da Serra.

Achavam curioso - e até encantador - ver, em certos quintais, grandes tabuleiros expostos ao sol, cobertos de pequenas rodelas de massa dourada.

Eram as cascas das queijadas de Sintra, deixadas a secar pacientemente antes de receberem o recheio doce e perfumado que lhes daria fama. O ar cheirava a farinha e a leite, e o quotidiano simples das gentes locais transformava-se, aos olhos dos visitantes, numa cena de autêntico encanto saloio.


Muitos nomes famosos tinha especial gosto por este local, como as pessoas do Grupo Onomástico "Os Carlos", que escolheu uma zona da freguesia, adquirindo 14mil m2 para implementar "Casa de Repouso de Carlos doentes", "Casa de agasalho para Carlos Inválidos" e "Colónia de Verão para Carlos Miúdos". 

Este projecto acabou por nunca ser implementado, ficando apenas a memória na zona, e muitos Homens da freguesia nascido nesta altura também terem ficado com o nome de Carlos.

Muitos nomes deixaram fortes memórias, como foi o caso do Professor Dr. Joaquim Fontes, que era um médico Obstetra que residia em Lisboa, e tinha a sua Quinta em Mem Martins, o "Casal dos Choupos" e foi um dos grandes incentivadores da criação das Festas de Nossa Sra da Natividade.

Fala-se que a Sta padroeira de Mem Martins é a Sra Natividade pelo motivo do dr. Joaquim Fontes ser obstetra.


Com o crescimento urbano e o aparecimento das primeiras fábricas e conjuntos habitacionais nas décadas de 1950 e 1960, Algueirão-Mem Martins começou a mudar. As casas senhoriais foram sendo vendidas ou demolidas, as grandes quintas divididos em lotes, e o comboio passou a trazer sobretudo trabalhadores pendulares, e não veraneantes.



Mas, entre as ruas sub-urbanas e os prédios ao estilo "Pato Bravo" ainda se encontram vestígios desse passado: um portão de ferro enferrujado com as iniciais de uma antiga família, um tanque de pedra esquecido num quintal, ou o nome de uma rua que recorda a uma antiga quinta.

O tempo apagou muito, mas não tudo.
Nas memórias de quem ainda recorda, Algueirão-Mem Martins que foi, durante meio século, um refúgio de veraneio - um lugar onde o campo e a cidade se encontravam, e onde a Serra de Sintra era, mais do que cenário, um remédio para o corpo e para a alma.