06/09/2015

OpiniãoAMM: Os suburbios de uma identidade

Texto Carlos Carracha
(residente na vila)



Descobri há pouco tempo através do meu filho de 15 anos que um rapper de Mem-Martins chamado Bispo se tinha tornado conhecido com uma musica chamada “Mentalidade Free” cujo refrão “ 2725 Algueirão Mem Martins” era cantado por muita gente em Portugal que gosta de hip-hop; a citação é interessante porquanto através de um código postal – naturalmente desligado de qualquer identidade, não passa de um número, se retrata um pouco da forma como os jovens actuais vêem e sentem a sua terra. 

O desenraizamento e a pouca noção da história, dos costumes e tradições – que naturalmente foram sendo apagadas da freguesia, tornam esta identificação com um sítio um tanto ou quanto complexa e desconexa. A minha infância há mais de 40 anos foi passada na rua, conhecíamos os cantos todos de Mem-Martins. Tanto podíamos estar uma tarde a tentar apanhar rãs na fonte de chafurdo junto aos casais de Mem-Martins (fica junto ao Modelo) como a seguir organizávamos um jogo de futebol entre a Praceta Manuel Rodrigues da Silva – que até há cerca de 18 anos era de terra batida, para quem não sabe é a Praceta a seguir ao Milenium BCP - contra o bairro de S.Carlos; no campo velhinho do Mem-Martins Sport Clube e antes de haver a Quinta do Recanto, arranhei muitos joelhos e vi muitos jogos de futebol...até a Escola Primária Guerrra Junqueiro ficava encostada ao campo da bola, muitos dias da minha infância foram passados naquelas dezenas de metros quadrados...

Quando falo em identidade percebo que ela é criada pelas coisas que partilhamos e pela forma como nos orgulhamos do espaço em que habitamos porque afinal essa também é a nossa casa e também ela cria a nossa identidade. O futuro passa por defendermos um a um ou juntamente com todos, a nossa capacidade de nos assumirmos como uma comunidade consciente e que se transcende na criação dessa comunhão cívica
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1 comentário:

  1. Sou possivelmente a primeira pessoa a ter sido registada na freguesia Algueirão-Mem Martins, freguesia recente em 1967, já que tinha sido um "destaque", tanto quanto sei, de São Pedro, faz por estes dias 48 anos que fui registado. Dizia o meu falecido pai que quando me foi registar lhe terão dito " morrer, já morreram alguns, nascer é o primeiro". Independentemente deste pequeno pormenor, há de fato alterações profundas, quer na organização urbana, quer no tecido empresarial, quer ainda no tipo de população residente. Saí de Mem Martins em 1971, vivia na Rua de Macau na altura. Por esses anos começou a fazer-se sentir o movimento migratório das pessoas que viviam em Lisboa e que começaram a vir viver para a linha de Sintra, costumo dizer a brincar que os meus pais foram os percursores desse movimento. Nessa altura ainda existiam por aqui muitas quintas. A minha memória está pejada de lembranças de andar a correr atrás dos meus irmão sem preocupações com o transito. A população sofreu por esses anos um aumento significativo, para além daqueles que já ali viviam, juntaram-se os que vieram de Lisboa, muitos beirões que para aqui vieram trabalhar e também uma comunidade significativa de pessoas oriundas do Alentejo. Paralelamente começaram a desaparecer as quintas, as casas "domingueiras" e em pouco tempo os terrenos foram sendo preenchidos por prédios como cogumelos. Nessa altura ainda havia aqui e ali alguma agricultura, e o sector primário começa a soçobrar para o sector secundário com o aparecimento de algumas fábricas na zona industrial, que eram alimentadas pela mão de obra dos novos habitantes a que fiz referência atrás. Hoje o sector terciário tomou conta da vila, sobram grandes lojas, morre o comércio tradicional a indústria perde força e a maioria dos moradores não faz a mínima ideia de como era exíguo o tecido urbano da vila.
    Foi só um desabafo de alguém que vê a freguesia, onde já não vivo, e o concelho definhar às mães dos partidos políticos que vêem em Sintra (concelho) uma incubadora de jovens e menos jovens, para outros vôos logo que deles necessitem e nós vimos como desconhecem a realidade. Sintra está pensada para os turistas, quando primeiro devia ser para os residentes, Algueirão-Mem Martins perdeu qualidade de vida, e isto é transversal a todo o concelho. Hoje sinto-me um estranho na minha terra, mas 2725 faz parte dos "soud bites" dos meus filhos a quem tento passar as minhas pequenas histórias.
    Frederico Madeira

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