Tempo em Algueirão Mem Martins

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Centro de Algueirão Mem Martins está cada vez mais triste....

Há uma tristeza silenciosa que se instalou em Mem Martins. Não chegou de um dia para o outro. Não fez barulho. Foi entrando devagar, ano após ano, rua após rua, porta após porta.

Quem conheceu esta terra há décadas talvez ainda procure vestígios da vila que existia na sua memória. Mas a cada caminhada parece haver menos para encontrar. Os rostos mudaram, os espaços desapareceram, as referências perderam-se. O que antes fazia parte da identidade coletiva transformou-se numa sucessão de recordações dispersas.
Muitas lojas fecharam. Muitos estabelecimentos que marcaram gerações são hoje apenas fotografias antigas ou histórias contadas por quem ainda se lembra. Os lugares continuam fisicamente presentes em alguns casos, mas já não têm alma. São apenas sombras do que foram.


As ruas parecem mais cheias do que nunca, mas paradoxalmente mais vazias. Há movimento, mas pouco encontro. Há pessoas, mas pouca comunidade. Cada um segue o seu caminho com pressa, como se a própria terra tivesse deixado de ser um destino para passar a ser apenas um local de passagem.
O tempo não foi gentil com Mem Martins. Os edifícios envelhecem, os espaços degradam-se e as promessas de melhoria sucedem-se sem conseguir apagar a sensação de abandono que muitos sentem. Há zonas onde parece que o relógio parou. Outras onde parece que ninguém olha.

Talvez o mais triste seja perceber que a perda aconteceu de forma tão lenta que quase ninguém reparou. Um café fechou. Depois outro. Uma loja desapareceu. Depois outra. Um espaço ficou vazio. Depois mais um. E, pouco a pouco, foi desaparecendo algo que não pode ser medido nem recuperado facilmente: o espírito do lugar. Hoje, para muitos habitantes, Algueirão Mem Martins já não é a vila vibrante das suas memórias. É apenas um reflexo distante, desgastado pelo tempo e pela indiferença. Uma terra que continua a existir nos mapas, nos horários dos comboios e nas moradas de milhares de pessoas, mas que parece ter perdido parte da sua identidade pelo caminho.
E talvez seja isso que torna tudo mais melancólico: a sensação de que aquilo que se perdeu não voltará. Que algumas portas fecharam para sempre. Que algumas histórias terminaram sem substituição. E que, enquanto os anos passam, Mem Martins continua lentamente a tornar-se um lugar mais triste do que aquele que muitos aprenderam a amar.

Ai Ai tantas recordações boas desta vila gigante....

5 comentários:

  1. As pessoas trocaram o comércio tradicional pelas grandes superfícies

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  2. há o declínio do chamado comércio tradicional (iniciado há muito tempo, irreversível, e logo um aspecto que não faz sentido citar) e a questão da imigração. costumo passar por essa zona regularmente quando faço a minha corrida de bicicleta bi-semanal e por lá, sobretudo nas horas atarefadas, encontro sobretudo pessoas que gostam de Sintra e de Portugal tanto como eu do Uzbequistão. nada nos liga a essa gente a não ser que precisamos de oxigénio para respirar.
    ah, ambos são insolúveis.

    partes consideráveis de Sintra estão a meia dúzia de anos de se tornarem em zonas completamente indesejadas por pessoas económica, social e civicamente produtivas.
    veja-se como está a Tapada das Mercês. ou como está a zona que circunda centro de saúde.

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  3. mais uma coisa: talvez fizesse sentido alguém com acesso à classe política convencer a mesma a parar de autorizar a edificação de supermercados. viajo com regularidade e não encontrei nenhum caso, e falo de países mais ricos do que o nosso, similar. eu tenho, num raio de 15 km's, qualquer coisa como pelo menos 50, talvez mais. tenho dupla nacionalidade e no meu outro país (uma potência económica, diga-se), nesse mesmo raio de 15 kms, não tenho mais de 5.

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  4. a questão choca-me. adoro sintra, considero-me sintrense, alardeio-o regularmente, e defendo há muito uma política que olhe para Sintra de uma maneira que respeite aquilo que ela foi, aquilo que ela é e aquilo que ela está a caminho de ser (iremos suplantar Lisboa antes de 2040).

    a política de respeito pela cidade, por Portugal, por aquilo que distingue os portugueses, de resposta ao que pede resposta, precisa de ser agressiva, em todos os sentidos imagináveis. Ou isto tornar-se-á numa zona irrespirável, pestilenta, massacrada por todo o género de problemas sem solução.

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  5. Excelente texto, uma grande verdade, mas são os novos tempos. O progresso, as novas tecnologias, um novo modo de vida. É o século XXI, para trás ficou o século e todas as suas décadas com outros hábitos, outro modo de estar na vida. Um grande abraço Hugo.

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