Tempo em Algueirão Mem Martins

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Tapada das Mercês: memórias de um local com história

Antes dos prédios, das ruas movimentadas e da vida acelerada dos nossos dias, a Tapada das Mercês era um lugar de silêncio, natureza e histórias escondidas entre árvores, caminhos de terra e antigas propriedades.


O próprio nome guarda a memória desse passado. Uma tapada era um espaço fechado, muitas vezes destinado à caça, ao descanso e ao contacto com a natureza. E foi nesse cenário, entre a paisagem de Sintra e os seus campos, que esta terra ficou ligada a uma das figuras mais importantes da história de Portugal: Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.

No século XVIII, quando a região ainda era marcada por quintas, matas e propriedades senhoriais, a Tapada das Mercês fazia parte de um conjunto de terras associadas à família do Marquês de Pombal. Era um lugar de lazer, de caça e de tranquilidade, onde a nobreza procurava afastar-se da agitação da vida política e da corte.

Foi também aqui que ficou a memória da Casa Pombal, construída em 1765 por iniciativa do Marquês de Pombal e oferecida ao seu filho, Paulo de Carvalho e Mendonça. Esse solar representava a presença de uma família poderosa numa paisagem que, nessa época, ainda mantinha o encanto rural característico da região de Sintra.


A poucos quilómetros dali, a Granja do Marquês reforçava esta ligação da família Pombal às terras de Sintra, numa época em que as grandes propriedades eram espaços de produção agrícola, de descanso e de afirmação social.

Mas o tempo mudou tudo. Onde antes existiam campos, árvores, animais e caminhos antigos, nasceram novas ruas e novos bairros. A pequena paisagem rural transformou-se numa zona urbana cheia de vida, com milhares de histórias de moradores que ali construíram as suas próprias memórias.

Apesar das mudanças, o nome Tapada das Mercês continua a ser uma ponte para o passado. Quando hoje se percorrem as suas ruas, talvez seja difícil imaginar que por ali passaram outros tempos: o som dos passos nos caminhos de terra, a sombra das árvores antigas e a presença de uma época em que estas terras pertenciam ao mundo das quintas e dos senhores.

A Tapada das Mercês não é apenas um lugar no mapa. É uma página viva da história de Sintra, onde o presente cresceu sobre as marcas de um passado que merece ser lembrado.

FONTE: Museu do Ar: As propriedades conhecidas por Granja do Marquês e Quinta das Mercês, foram arrendadas ao Estado Português pelo 5º Marquês de Pombal, por um período de 30 anos pelo valor de 84 000 réis, com o intuito de fundar um estabelecimento que ministrasse o ensino da prática agrícola.

Mem Martins Sport Clube: uma história de paixão, dedicação e orgulho da nossa terra

Há datas que fazem parte da memória de uma terra. Hoje é um desses dias. 
O Mem Martins Sport Clube celebra mais um aniversário e, ao recordar a sua história, recordamos também muitas das histórias de vida de quem cresceu, viveu e sentiu esta comunidade.
Fundado em 22 de julho de 1937, o clube nasceu numa época em que Mem Martins era ainda uma localidade em crescimento, muito diferente da freguesia que conhecemos atualmente. Nessa altura, as ruas tinham outro movimento, as relações entre vizinhos eram mais próximas e o associativismo era uma das grandes formas de juntar pessoas em torno de um objetivo comum. O Mem Martins Sport Clube foi crescendo lado a lado com a própria terra. Foi nos seus espaços que muitas crianças deram os primeiros pontapés na bola, que muitos jovens fizeram amizades para a vida e que muitas famílias encontraram um lugar de convívio e partilha. Quem viveu outras épocas recordará certamente os dias de jogo, o ambiente vivido junto do campo, o som dos aplausos, as conversas entre sócios, as camisolas vestidas com orgulho e aquele sentimento especial de representar a sua terra. Mais do que resultados desportivos, ficam as memórias. Ficam as tardes de domingo, os encontros entre amigos, os atletas que passaram pelo clube, os treinadores que ensinaram muito mais do que futebol e todos aqueles que, com dedicação e esforço, ajudaram a construir esta instituição. Ao longo de décadas, muitos anónimos deram parte da sua vida ao Mem Martins Sport Clube. Pessoas que trabalharam longe dos holofotes, muitas vezes sem reconhecimento público, mas que deixaram uma marca que permanece até aos dias de hoje. O clube acompanhou as grandes transformações de Mem Martins, viu crescer bairros, escolas e novas gerações, mantendo sempre a missão de aproximar pessoas através do desporto e do espírito associativo. 

Hoje, celebrar o aniversário do Mem Martins Sport Clube é celebrar também a história da nossa terra. É lembrar quem já partiu, homenagear quem continua a colaborar e agradecer a todos os que alguma vez vestiram esta camisola ou sentiram este clube como seu. Porque um clube não é apenas um símbolo ou um campo. Um clube são as pessoas, as histórias e as memórias que ficam. 

Parabéns, Mem Martins Sport Clube! Muitos anos de história, orgulho e ligação à nossa comunidade.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Mem Martins e o Alegro Sintra: tão perto... mas tão longe para quem vai a pé

O Alegro Sintra fica a poucos minutos de Mem Martins, mas quem decide fazer o percurso a pé rapidamente percebe que não foi pensado para peões. Passeios estreitos ou inexistentes, passadeiras mal localizadas, zonas pouco seguras e um ambiente dominado pelo trânsito tornam a caminhada desconfortável e, em alguns pontos, até perigosa.


É legítimo perguntar: 

para ir ao shopping de forma confortável somos obrigados a usar o carro? 

- Ou a apanhar um autocarro para percorrer uma distância relativamente curta?

Numa altura em que tanto se fala em mobilidade sustentável, redução do trânsito e incentivo à caminhada, continua a faltar uma ligação pedonal digna entre Mem Martins e o Alegro Sintra. Muitas pessoas gostariam de fazer este percurso a pé, seja para passear, fazer compras ou simplesmente praticar exercício físico, mas acabam por desistir devido às condições existentes.

Criar um percurso pedonal contínuo, seguro, acessível e bem iluminado seria um investimento na qualidade de vida da população. Não beneficiaria apenas os residentes de Mem Martins, mas também quem diariamente se desloca entre estas duas zonas.

Caminhar não devia ser uma aventura. Uma ligação tão próxima merece condições à altura das necessidades de quem escolhe deslocar-se a pé.

sábado, 18 de julho de 2026

"Negro" de Mem Martins

Muitas pessoas desconhecem que, escondida na história de Mem Martins, existe uma riqueza natural que ultrapassou as fronteiras da própria localidade: o “Negro de Mem Martins”.


Extraída das antigas pedreiras existentes na região, esta pedra negra destacou-se pela sua cor, qualidade e beleza, sendo utilizada em obras de grande importância ao longo dos séculos. Mais do que um simples material de construção, tornou-se um testemunho do trabalho dos homens que exploraram a pedra e da importância que Mem Martins teve na arte e arquitetura portuguesas.

Um dos exemplos mais marcantes encontra-se no Real Edifício de Mafra. Durante a construção do Palácio Nacional de Mafra, no século XVIII, foram utilizadas várias pedras provenientes da região de Lisboa e Sintra, entre elas o chamado “Negro de Mem Martins”. Esta presença liga diretamente a nossa terra a uma das maiores obras do reinado de D. João V e a um monumento hoje classificado como Património Mundial da UNESCO.

Mas a viagem desta pedra não ficou por Mafra. Existem referências à utilização do Mármore Negro de Mem Martins em peças e elementos patrimoniais, como no Panteão Nacional, demonstrando a continuidade da utilização desta pedra em obras de prestígio. Também existem referências à aplicação de pedras negras de Mem Martins em trabalhos artísticos e arquitetónicos mais recentes, mostrando que esta pedra continuou a ser valorizada pela sua singularidade.

Há ainda memórias locais que apontam para a presença desta pedra em edifícios emblemáticos de Lisboa, como a antiga sede do Banco Nacional Ultramarino, na Rua Augusta, uma ligação que merece ser aprofundada através de investigação documental e análise dos materiais existentes.

A Pedra Negra de Mem Martins é, assim, uma história que merece ser contada: uma pedra retirada do solo da nossa vila, trabalhada por mãos locais, e que acabou por fazer parte de monumentos onde se escreve a própria História de Portugal.

A história da Pedra Negra de Mem Martins também está ligada à transformação da própria paisagem da vila. A última pedreira conhecida onde ainda era extraído o famoso “Negro de Mem Martins” localizava-se numa zona que, com o crescimento urbano, deu lugar à atual Urbanização Mem Martins Poente.

Hoje, no meio das ruas, prédios e jardins desta urbanização, poucos imaginam que naquele local existiu uma pedreira onde se retirava uma pedra rara, que depois seguia viagem para integrar obras de grande importância nacional.

É uma memória que merece ser preservada: antes de ser uma zona habitacional, aquele espaço fazia parte da história industrial e geológica de Mem Martins, onde homens trabalhavam a pedra que viria a marcar presença em monumentos como o Palácio Nacional de Mafra.



sexta-feira, 17 de julho de 2026

Bairro Teimoso - Mem Martins

Os antigos habitantes de Mem Martins apelidavam aquele conjunto de casas, perto do Cruzeiro como “Bairro Teimoso”. Era uma pequena comunidade onde as portas se abriam facilmente, as crianças brincavam na rua até o sol desaparecer e os vizinhos sabiam sempre quem precisava de ajuda.

Ali perto do Cruzeiro, por onde hoje passam milhares de carros, existia um Mem Martins mais calma, feita de conversas à porta, de bicicletas encostadas aos muros e de gente que se cumprimentava pelo nome.

O nome "Teimoso" ficou ligado a uma zona que, apesar das mudanças e do crescimento da vila, parece ter mantido a sua identidade. Enquanto os prédios foram aparecendo e os campos deram lugar a novas construções, aquele pedaço de Mem Martins continuou agarrado às suas memórias, atualmente bem escondido.

Muitos moradores antigos ainda recordam os tempos em que o Cruzeiro era um verdadeiro ponto de encontro. Era ali que se marcavam encontros, onde se esperava alguém, onde se comentavam as novidades da terra e onde se sentia o pulsar de uma comunidade que crescia.

O Bairro Teimoso é uma dessas páginas da história de Mem Martins que merece ser contada: uma história feita não apenas de ruas e casas, mas das pessoas que ali viveram, trabalharam, brincaram e ajudaram a construir a vila que hoje conhecemos. Ali também existiram construções tipicamente saloias que foram demolidas, onde hoje já existem prédios. 



Fonte dos Casais de Mem Martins

Houve um tempo em que uma simples fonte era muito mais do que um lugar onde se ia buscar água. Era um ponto de encontro, um lugar de passagem obrigatória, onde se cruzavam rostos conhecidos e onde cada ida à fonte trazia sempre uma conversa nova.

Antes da água canalizada chegar a todas as casas, a Fonte dos Casais fazia parte do dia a dia de muitas famílias. Ao ombro ou pela mão, levavam-se cântaros, bilhas e garrafões, num caminho que já todos conheciam. A água era preciosa e cada viagem tinha um propósito, mas acabava muitas vezes por ser também um momento de convívio.
Enquanto se esperava pela vez de encher os recipientes, as conversas iam surgindo naturalmente. Falava-se da vida, das dificuldades, das alegrias, das festas, das colheitas e das histórias da terra. Era ali que se sabiam as novidades, que se combinavam encontros e que se reforçavam amizades antigas.
A fonte era uma espécie de jornal da comunidade, mas sem páginas nem letras. As notícias passavam de pessoa para pessoa, entre sorrisos, cumprimentos e pequenas conversas que faziam parte da rotina de quem ali vivia.
Muitas crianças cresceram a acompanhar os pais ou os avós nesses caminhos até à fonte. Eram tempos em que se aprendia o valor da água, o respeito pela natureza e a importância da entreajuda. Um simples gesto, como ajudar a carregar um garrafão, fazia parte da vida familiar.

Hoje, abrir uma torneira e ver a água correr parece algo garantido. Mas houve uma época em que cada litro de água trazia consigo uma história: o caminho até à fonte, o encontro com os vizinhos, o som das conversas e até aquele momento de descanso à sombra enquanto se esperava.
A Fonte dos Casais guarda na sua memória muito mais do que água. Guarda vozes, rostos e lembranças de uma comunidade que se encontrava junto a uma nascente, onde cada pessoa levava para casa um recipiente cheio… mas deixava também um pouco de conversa e amizade.