01/03/2015

OpiniãoAMM: Porque não penso sair de Mem-Martins

Texto Fernando Lebre
(Jornalista e autor literário)



Nunca ponderei em sair de Algueirão-Mem-Martins. Em jeito de gracejo, os meus amigos que em Mem-Martins não habitam, troçam comigo pelo meu bairrismo exacerbado.
Provavelmente sê-lo-á, não sei, mas sinto que é esta a terra a que pertenço e que, de algum modo, também um pouco dela me pertence. Embora a vida profissional não me permita fazê-lo tão amiúde como gostaria, regularmente não digo não a um passeio pela terra onde habito desde que me conheço como gente. Gosto da sensação única de cumprimentar com um olhar cúmplice pessoas cujo rosto conheço de toda a vida, mas que nunca me foram formalmente apresentadas. Desfruto da sensação de passear pelas ruas onde dei os primeiros passos nos tempos de meninice e de me aperceber das coisas que mudaram ou simplesmente daquelas que, por uma razão ou outra, teimam em não mudar.

Aprecio o característico cheiro a “comboio” que provém da velhinha estação de caminho-de-ferro ou o inigualável aroma de pão acabado de fazer que emana da decana padaria Primavera. O jornal parece ter mais cor quando comprado na papelaria Afonso V, onde durante anos a fio aguardei ansioso pela chegada dos novos manuais escolares. Sempre que a carteira o permite, registo os meus boletins nos jogos da sorte e azar no café do Zé do Nicho, outro dos locais emblemáticos que fazem parte do meu imaginário e onde há décadas a minha há muito falecida avó me ensinou a registar a primeira aposta nos embrionários meses de vida do então imberbe totoloto. Uma época, agora longínqua, em que se aguardava colado ao ecrã e em tom esperançoso o veredicto soberano de uma tômbola que então me parecia ter tanto de injusta como de mágica.

Religiosamente, continuo a orgulhar-me de nunca faltar às festas da Nossa Sra da Natividade. Não o faço por especiais razões de fé, embora não seja desprovido da mesma. Faço-o pela oportunidade de celebrar a nossa vila, vivenciando de perto um dos expoentes máximos da vida em comunidade da mesma, e também, confesso, porque durante o ano nenhuma outra fartura ou algodão doce me adocica tanto o palato como as que ali compro. Sempre apreciei e continuo a apreciar os salutares momentos de introspecção que continuo a ter no parque infantil da minha rua, local responsável por tantos momentos de lazer e simultaneamente de justificados raspanetes da minha mãe.

Se os episódios memoráveis aí vividos ficaram algures perdidos no tempo, os amigos que aí fiz, esses, felizmente ficaram para a vida. Por vezes gente de fora, pertinentemente, questiona-me se em Algueirão-Mem-Martins não me incomodam questões como a insegurança crescente, o estacionamento cada vez mais escasso ou os centros comerciais que pululam como cogumelos e asfixiam o comércio local.

Todos eles são temas que gostaria de ver resolvidos a breve trecho. Mas essas imperfeições, comuns a tantos outros grandes centros urbanos, não me fazem perder o amor por Mem-Martins, essa bonita vila com quotidiano de cidade, mas que não perde o melhor espírito que pode existir nos velhos hábitos de aldeia.  

1 comentário:

  1. Partilho e sinto o mesmo que aqui foi descrito. Nada como Mem Martins :)

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