05/04/2015

OpiniãoAMM: Viver e Sorrir na Tapada das Mercês

Texto Nuno Azevedo
(activista e criador do projeto Amizade Animal)




Sou um habitante na Tapada das Mercês à 14 anos, mas apenas à 5 destapou-se-me a realidade que estava escondida por detrás do nevoeiro da rotina casa-trabalho, trabalho-casa da linha de Sintra. Vivo hoje orgulhoso de viver na Tapada, não pelas razões materiais é certo, no entanto, nunca tive tantas dúvidas e ao mesmo tempo esperança no futuro. É necessário perceber quem somos e onde vivemos e realizar-mos algum tipo de reflexão, porque sem diagnóstico, não há remédio que valha.

No caso da Tapada das Mercês, realidade que vivo mais por dentro do que por fora, à falta de concretização física e resolução moral sobre o que aqui aconteceu. No plano físico, as evidências contrastam brutalmente com as promessas "históricas" do urbanizador e que nunca se concretizaram. Em reuniões com a Câmara nos últimos 5 anos, nunca responderam às expectativas de quem viveu o sonho de comprar uma casa, o que normalmente é um investimento de uma vida. Por isso, o resultado é um diferencial, uma lacuna, um antes e um depois do que era e do que ficou. Por outro lado, temos vindo a assistir a uma mobilização enorme e com aspectos sociais de impacto positivo ao verificar que existem pessoas não contentes com o que aconteceu, mas que não lhes impediu de ter fé no que pode ser melhorado, e por isso arregaçam as mangas. 

Não obstante não terem obrigação de o fazerem, são dezenas de pessoas (chegaram a ser às centenas em iniciativas locais), que optam por realizar na Tapada e fora dela reuniões, iniciativas, discussões, convites ao público, etc no qual eu destaco a Associação de Moradores da Tapada por ter visto todo o seu trabalho desenrolar, mas do qual já não faço parte. E é aí que reside a minha esperança. Mesmo na dúvida do futuro, na dúvida do que não acontece e o tempo vai lembrando que parece não estar nada a acontecer, que assisto todos os dias na Tapada a pequenos milagres. As relações ficam mais fortes, e são testadas. As ideias refinam cada vez mais as acções. E o tempo que cada um viu ser investido em pequenos gestos para mudar e participar nas soluções na Tapada, abrem caminho a um sorriso, a uma esperança. E à luz no fundo do túnel. 

Viver na Tapada das Mercês passou a ser um investimento mais humano do que material, quer as pessoas que cá vivam o entendam assim ou não. E esse investimento pessoal e único, quando existe, não se mede em números ou em facções. Mede-se na capacidade de aprender em comunidade e viver com as ferramentas que temos. E não será que esse conhecimento é benéfico para toda as freguesias, para toda a comunidade de Sintra? Não será esta a melhor altura para apresentarmos ideias, construir pontes entre freguesias e conhecimentos e saberes, ampararmos, e sairmos deste poço sem fundo de estar a falar sobre o que consideramos errado, e antes sugerirmos o que queremos fazer de certo? 

A fazer-se algo em Sintra e nas freguesias, que se faça o melhor com quem sabe e com quem tem esse poder. Mas que inclua estar com as pessoas, com a dinâmica das organizações locais, com as necessidades do comércio, e que ao mesmo tempo se manifeste num real interesse público na forma e conteúdo.

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