14/07/2015

Comissão de Trabalhadores da MESSA

Texto extraído da Dissertação de Mestrado em História dos Séculos XIX e XX (Secção do Século XX) (AGOSTO, 2008) de Miguel Ángel Pérez Suárez
Orientador: Professor Catedrático Fernando Rosas da ‘Faculdade de Ciências Sociais e Humanas’ da ‘Universidade Nova de Lisboa’


III.6. Messa (Mem Martins, Sintra)
Começaremos por falar na luta da Messa, uma empresa de fabricação de máquinas de escrever sediada em Mem Martins com cerca de 1700 trabalhadores, maioritariamente mulheres. A empresa vai viver um conflito de trabalho prolongado, conjugado com a própria crise da companhia que se prolonga até, e ultrapassa, o encerramento das instalações. As formas de luta e as reivindicações radicais destes trabalhadores vão chamar a atenção dos meios de comunicação social e dão o mote para as primeiras reflexões da sociologia sobre a onda de greves de Maio-Junho de 1974.

A 9 de Maio os trabalhadores apresentam o seu caderno reivindicativo: 40 horas, 6000$ de salário mínimo, publicidade de vencimentos, abolição do prémio, um mês de férias com subsídio, 13º e 14º mês, proibição de despedimentos sem justa causa e saneamento. Esta última questão, alicerçada em acusações de assédio sexual às trabalhadoras por parte das chefias. Os trabalhadores vão exigir:
a) Eliminar do seio da empresa todos os ditadores que sempre cercearam as aspirações do trabalhador, na sua evolução profissional, impuseram castigos injustos, disseram palavras menos correctas de chefes para subordinados ou viceversa, protegeram os bufos, albergaram no seu seio os engraxadores que normalmente são os menos competentes, prejudicando tanto a Entidade Patronal como o trabalhador, a fim de manterem o seu reinado.

A 16 de Maio começa a greve com ocupação das instalações que se vai manter até 28 de Maio. No dia 19 vai ser publicado o primeiro número do Jornal do Trabalhador da Messa. Na edição do dia 22 encontramos uma declaração de princípios e versos (Quadras do povo e Poema a futura Messa) que reflectem o nível de consciência dos trabalhadores. Reproduzimos apenas parcialmente estes textos:
(…) Estamos plenamente convictos que só haverá autêntica liberdade entre os Homens, quando o cancro da ganância, da inveja, da vigarice, do conceito de superioridade, haja desaparecido da face da Terra.

A nossa luta só tem verdadeiro significado se tiver como objectivo máximo a Emancipação dos POVOS TRABALHADORES de todo o mundo!

Os poemas seguem o mesmo tom e justificam alguns pedidos concretos de saneamento:

Quadras do povo
I
Quem produz toda a riqueza
Que pertence aos usurários?
Serão estes com certeza?
Ou somos nós, os operários?!!
(…)
Poema a futura Messa
(…)
V
Um senhor de simpatia
Como era o Rui de Matos
Dos aumentos não sabia
E dele ficamos fartos.
VI
O Águas nos iludia
Para a gente trabalhar
Mas nem a bata vestia
Com medo de a sujar
VII
Carolina, chegou a hora
Do teu tacho se quebrar
Queremos que vás embora
Para o fascismo acabar
VIII
Em frente, MESSA
Adiante povo unido
Proletariado em luta
Razão do dever cumprido

A greve vai prolongar-se até 28 de Maio, quando é assinado o CCT do sector metalúrgico. Na Messa os trabalhadores criticam a aceitação pelo sindicato de um salário mínimo de 4500$ e rejeitam o contrato. Quando em Setembro de 1975 a fábrica volta a ser ocupada, o motivo será um plano de viabilização proposto pela entidade patronal. Na Messa a crise tinha chegado para ficar.

Abaixo, a localização de todas as empresas referenciadas nesta Dissertação de Mestrado 

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