24/06/2012

Largo Ti Saloio - A Luz Eléctrica - Mem Martins

O actual Largo Artur Soares Ribeiro era o centro de "Mem Martins Saloio". Era ponto de encontro, sitio de festas e cegadas.

Hoje em dia é um espaço quase ignorado, mas é um dos locais com mais história da vila. Era designado o "Largo do Ti Saloio", onde ainda hoje existe a Vivenda Soares Ribeiro.

Artur Soares Ribeiro (1895-1985) foi impulsionador da construção da Escola Primária Guerra Junqueiro (tristemente já demolida), o principal elemento da Comissão de Melhoramentos de Mem Martins (1930), sócio fundador do Mem Martins Sport Clube, e mandou construir, por sua própria conta, o chafariz no Largo do Ti Saloio e um bebedouro para animais na Rua do Coudel.

Aqui deixo, um excerto de uma história ocorrida no Largo do Ti Saloio em 1928, retirada do livro "Mem Martins: Retratos" de Zé de Fanares (Sr. Luís Miguel, outro símbolo da vila), que descreve um momento importante na vila.

A Luz Eléctrica

"A Primeira vez que houve um arraial popular em Mem Martins foi pelo São João, no ano de 1928. Organizou-o o Artur Soares Ribeiro - o "Artur Saloio" - e a receita reverteu a favor da construção da escola "Guerra Junqueiro"

O local escolhido foi o largo do Ti Saloio (pai do organizador) e o programa era, deveras, aliciante. Um "sol e dó" de São Pedro mais o "Faneca" asseguravam a parte musical; havia quermesse, tômbola e uma barraca de comes e bebes; e, como entretenimentos; tracção à corda, gincana de bicicletas, corrida de sacos, pau de sebo... o costume!

Mas o grande atractivo do certame era a iluminação. Anunciava o prospecto em letras garrafais: "O recinto das festas encontra-se feericamente iluminado e ornamentado com lâmpadas eléctricas de cores variadas".

- Como!? Como é que pode ser isso se não há electricidade? - era a pergunta que corria de boca em boca.


Claro que os organizadores tinham, como se usa dizer, o trunfo na manga e, na véspera da festa, quando o Manuel Carreiro chegou de Lisboa, onde tinha ido levar um carrego de queijadas, por conta da Gertudes d'Ouressa, desvendou-se o mistério. Em cima da galera vinha um motor. Grande, enorme, com uma ventoinha que fazia lembrar a hélice duma traineira, com tubos e mais tubos, fios, botões, manípulos, manómetros, termómetros, etc... Era um gerador que um engenheiro do Arsenal da Marinha, emprestara ao "Artur Saloio".

Durante o resto do dia foi um corrupio de gente para ver, de perto o "aparelho". Os mais entendidos apreciavam-lhe os cilindros, calculavam-lhe os cavalos e alguns, mais curiosos, tentavam até adivinhar como é que aquilo fabricava electricidade. Os outros, os que não percebiam patavina do assunto, olhavam para aquela "mánica" como um boi para um palácio.

Ao lusco-fusco experimentou-se a instalação do arraial. Foi um momento histórico: naquela amena noite de Junho viu-se pela primeira vez a luz eléctrica em Mem Martins!



No dia da festa era gente e mais gente. Todos de nariz no ar a olharem para as lâmpadas das mais variadas cores, penduradas nos fios e a imaginarem o efeito que fariam depois de acesas. 

Quando, à noite, se conseguiu (á terceira tentativa) pôr aquela bizarma a trabalhar e se ligaram as luzes ouviu-se um uníssono "ah!" de espanto e vários vivas ao "Artur Saloio"

O deslumbramento, no entanto, durou pouco tempo. O motor conforme foi aquecendo foi aumentando de trepidação e, às tantas, nada nem ninguém o conseguiu segurar...

(...)

Com grande mágoa do Soares Ribeiro a festa continuou até ás tantas da madrugada, mas... à luz do petróleo...."

(...)


8 comentários:

  1. Muito bonito! Retratos daquilo que já foi uma vila Saloia....

    Abraço

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  2. Eu tenho 39 anos e ainda saltei às fogueiras no largo. Era um tempo engraçado de tradições que se vão perdendo. É pena!

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    1. Quem es tu? Eu tenho 38 e tb saltei.

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  3. Gostei bastante do que li e não posso deixar aqui expresso as saudades de outros tempos. Nasci em Lisboa e vim morar para Mem Martins em 1938 e até hoje, felizmente, por cá vou estando. Conheci o Sr. Artur Soares Ribeiro, pessoa com quem o meu pai negociou a compra de um terreno e onde fez a sua casa. Conheci o Ti Faneca e a sua concertina. Ainda dancei em alguns bailaricos ao som da sua concertina.

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  4. Mais um excelente trabalho de investigação do Hugo Nicolau! Obrigado Hugo!

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  5. Parabéns Hugo Nicolau, por mais esta história da vila de Alg. Mem Martins que tanto estimado e proteges. Já está na hora de editares um livro com todas estas histórias fantásticas que certamente sao as testemunhas de pessoas mais antigas da terra. Forte abraço do Célio

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  6. Parabéns Hugo Nicolau, por mais esta história da vila de Alg. Mem Martins que tanto estimado e proteges. Já está na hora de editares um livro com todas estas histórias fantásticas que certamente sao as testemunhas de pessoas mais antigas da terra. Forte abraço do Célio

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  7. A casa dos meus avós na 2a foto. Como é bom saber mais sobre a freguesia onde eu nasci e cresci.

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